Pandemia completa tr├¬s anos com crianças entre os mais vulner├íveis diante da Covid-19

O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Cl├│vis Constantino, disse que não foi pequeno o n├║mero de crianças que adoeceu e morreu por covid-19

Por Portal O Piauí em 11/03/2023 às 14:54:58
A vacinação de crianças foi decisiva para que o país evitasse que mais pessoas morressem vítima da Covid-19

A vacinação de crianças foi decisiva para que o país evitasse que mais pessoas morressem vítima da Covid-19

A vacinação foi a ferramenta de prevenção que teve maior impacto no controle da pandemia de covid-19, que completa hoje (11) tr├¬s anos. Apesar disso, grande parte das crianças brasileiras ainda não teve acesso a essa proteção e elas são consideradas por especialistas como vulner├íveis a casos graves e mortes pela doença.

Segundo o Ministério da Sa├║de, entre os beb├¬s e crianças de seis meses a quatro anos de idade, a cobertura vacinal contra a covid-19 é de 25% na primeira dose e de 2,5% na segunda.

O esquema b├ísico para essa vacina também prev├¬ uma terceira dose, oito semanas após a D2, e só 0,1% do p├║blico-alvo recebeu essa aplicação. Essa faixa et├íria foi a ├║ltima a ter acesso às vacinas, com a Pfizer baby, aprovada pela Ag├¬ncia Nacional de Vigil├óncia Sanit├íria (Anvisa) em setembro do ano passado.

Pfizer Covid vacina para Crianças
Pfizer Covid vacina para Crianças - Reuters/Eric Seals/Direitos reservados

Antes disso, crianças de tr├¬s e quatro anos podiam ser vacinadas com a CoronaVac, aprovada pela Anvisa para essa faixa et├íria em julho de 2022. Apesar disso, somente 22,87% das crianças com tr├¬s e quatro anos foram imunizadas com a primeira dose, e 10,2% receberam a segunda dose, de acordo dados enviados pelo Ministério da Sa├║de à Ag├¬ncia Brasil.

J├í na faixa et├íria mais velha - de cinco a onze anos - a primeira vacina aprovada foi a Pfizer Pedi├ítrica, ainda em dezembro de 2021. A vacinação propriamente dita começou apenas em janeiro de 2022, com mais de um m├¬s de atraso, e, mais de um ano depois, a cobertura vacinal para a primeira dose é de 71,62% e a da segunda dose, de 51,58%.

Risco de infecção

Com coberturas tão abaixo da média da população brasileira, as crianças estão expostas à infecção pelo coronav├şrus, cuja circulação foi impulsionada pelas linhagens da variante Ômicron.

O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Clóvis Constantino, disse que não foi pequeno o n├║mero de crianças que adoeceu e morreu por covid-19 nesses tr├¬s anos. Segundo o Laboratório de Sa├║de da Inf├óncia, da Fundação Oswaldo Cruz e da Faculdade de Medicina de Petrópolis do Centro Arthur de S├í Earp Neto (Unifase), o Observa Inf├óncia, mais de 1,8 mil crianças menores de cinco anos morreram de covid-19 entre o in├şcio da pandemia e outubro de 2022.

"Ao contr├írio do que se dizia, que a criança não apresentaria formas graves da doença, ela apresentava com uma certa frequ├¬ncia, inclusive, com casos de s├şndrome inflamatória multissist├¬mica (SIM) e comprometimento card├şaco", disse Constantino, que também destaca os quadros de covid longa.

"Se a criança consegue sobreviver, tem a possibilidade de covid longa, principalmente nas que tiveram maiores comprometimentos, como a SIM, que é uma inflamação geral do organismo que tem um tempo muito longo de recuperação", afirmou.

Constantino v├¬ a disseminação de fake news [not├şcias falsas] como ponto importante para a hesitação dos pais em vacinar seus filhos. Diante disso, o médico pediatra tranquilizou os respons├íveis sobre algumas das d├║vidas mais frequentes: os efeitos adversos causados por essas vacinas não fogem à normalidade do que j├í era previsto para outros imunizantes, e a tecnologia desenvolvida para elas não foi criada da noite para o dia, mas fruto de um salto tecnológico que levou muitos anos para estar pronto e poder ser usado na pandemia.

"O substrato biológico j├í estava pronto h├í muito tempo. Apenas faltava fazer o sequenciamento do v├şrus, identificar a parte do v├şrus que seria usada e fazer a adaptação dessa plataforma biológica que j├í estava pronta. Isso significa uma alta segurança do produto. Não havia necessidade nenhuma de se duvidar", explicou.

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, lamentou que, pela primeira vez, pais buscaram a imunização para se proteger, mas não fizeram o mesmo para proteger seus filhos. O médico v├¬ as not├şcias falsas espalhadas sobre a vacinação como um elemento importante para esse problema.

"Isso impactou bastante na pediatria e na confiança das pessoas. É algo mais seletivo contra as vacinas de covid, mas acaba respingando nas outras vacinas, no conceito de vacinação, no valor das vacinas. E talvez o maior pilar de um programa de vacinação é a confiança, não só na vacina, mas no poder p├║blico", salientou.

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Idosos

Kfouri observou que, ao longo da pandemia, foi muito enfatizado o risco de agravamento da doença em idosos, e que essa comparação com outros grupos como as crianças contribuiu para a invisibilização dessa faixa et├íria. O problema cresce com a demora na chegada das vacinas para crianças, que só ficaram dispon├şveis em um momento em que a mortalidade da pandemia j├í havia passado da sua pior fase.

"O mais justo não é comparar a covid-19 na pediatria com a covid-19 no adulto e no idoso, mas, sim, a covid-19 na pediatria com as outras infecções pedi├ítricas. Quando a gente v├¬ isso, só a covid, sozinha, faz mais v├ştimas em crianças do que todas as doenças do calend├írio infantil de imunização. Se somar as mortes por todas as doenças imunoprevin├şveis, a covid-19, sozinha, faz mais v├ştimas", garantiu.

Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), zona norte do Rio. A cidade do Rio de Janeiro retoma hoje (25) sua campanha de aplicação da primeira dose da vacina contra a covid-19 em idosos da população em geral.
Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), zona norte do Rio - T├ónia R├¬go/Ag├¬ncia Brasil

Para o co-coordenador do Observa Inf├óncia, Cristiano Boccolini, a ideia de que as crianças não são do grupo de risco para covid-19 é falsa.

"As crianças, comparadas com adultos e idosos, t├¬m um risco menor de ter a doença, mas elas não estão isentas de risco. Foi vendida para a sociedade a ideia de que criança não morre de covid. O ex-presidente falou isso, o ex-ministro falou isso. E isso entrou em um senso comum. As crianças t├¬m, sim, risco, e hoje ele pode ser prevenido por medidas de vacinação. Cada morte de criança a partir de seis meses é uma morte preven├şvel", especificou.

Também co-coordenadora do laboratório, Patr├şcia Boccolini lembrou que houve atraso na disponibilização da vacina pedi├ítrica para a população e a criação de obst├ículos, inclusive com o governo federal levantando a hipótese de exigir a assinatura de termo de consentimento e responsabilidade para a vacinação das crianças.

"O governo [anterior] fez de tudo para complicar. Ele não só não ajudou, como atrapalhou", avaliou Patr├şcia. "A figura central do Brasil [o ex-presidente Jair Bolsonaro] sempre defendeu que não iria se vacinar e que não iria vacinar sua filha, que era uma criança. Isso tudo para exemplificar que os pais t├¬m a sua parcela de culpa, mas o cen├írio todo estava desfavor├ível e contribuindo para a hesitação desses pais" recordou Patr├şcia.

Beb├¬s recebem as vacinas do calend├írio b├ísico de vacinação do SUS na Unidade B├ísica de Sa├║de - UBS Br├ís.
Vacinas protegem crianças contra a covid-19 (Rovena Rosa/Ag├¬ncia Brasil)

Para a pesquisadora, é muito importante a inclusão da vacina contra a covid-19 no calend├írio de vacinação da criança, estabelecendo como uma obrigação dos pais e respons├íveis.

"A vacinação est├í em destaque no Estatuto da Criança e do Adolescente como um direito da criança, e isso não foi respeitado. Só agora o governo est├í discutindo a entrada dela no calend├írio oficial. Se é um direito, ela tem que estar presente nesse calend├írio", acrescentou.

O Observa Inf├óncia destacou ainda que, além das mortes e sequelas da covid longa e os efeitos para a sa├║de mental do isolamento e do ensino remoto, as crianças e adolescentes sofreram também com a perda de seus pais durante a pandemia. Um estudo divulgado no fim do ano passado pelo grupo contabilizou 40 mil crianças e adolescentes que ficaram órfãos de mãe no Brasil por causa da covid-19.

"Normalmente as mães t├¬m um papel central na organização familiar. Então, ocorre uma relativa desorganização familiar, muitas vezes com as crianças tendo que ser adotadas ou tutoradas por parentes ou outras pessoas. E tem toda a questão da segurança social, como questões relacionadas à renda", destacou Cristiano Boccolini.

Crianças e adolescentes

Procurado pela Ag├¬ncia Brasil, o Ministério da Sa├║de adiantou que, na segunda etapa do Movimento Nacional pela Vacinação, que ocorre agora em março, ser├í reforçada a import├óncia da vacinação contra covid-19 com foco nas crianças e adolescentes.

O ministério afirmou, também, que trabalha em conjunto com estados e munic├şpios para sensibilizar a necessidade da vacinação neste p├║blico e esclarecer os pais e respons├íveis sobre a efic├ícia e segurança das vacinas e os riscos de doença e morte das pessoas não vacinadas. Segundo assessoria de imprensa do Ministério da Sa├║de, ainda em janeiro, a nova gestão iniciou as tratativas com laboratórios para antecipar as entregas dos imunizantes, que estavam em falta em todo o pa├şs.

"O Ministério da Sa├║de reforça que a vacinação é a forma mais eficiente de salvar vidas contra a covid-19. A redução de óbitos e casos graves que o pa├şs vem registrando é reflexo da vacinação. Para que se mantenha essa tend├¬ncia de queda, é necess├írio que a população se vacine e complete o esquema vacinal com todas as doses recomendadas para cada faixa et├íria. Para mobilizar o pa├şs sobre a import├óncia da vacinação, o Ministério da Sa├║de lançou o Movimento Nacional pela Vacinação, que visa unir o pa├şs no propósito de ampliar as coberturas vacinais em todas as faixas et├írias. As vacinas são seguras e eficazes, protegem crianças, adultos e idosos contra a doença", esclareceu o ministério.

Edição: Kleber Sampaio

Fonte: Agência Brasil

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